Sabemos que a realidade da maior parte das famílias brasileiras é dura. Muitas vezes, mesmo após conquistar um pequeno lote, não há recursos suficientes para contratar todos os serviços técnicos recomendados — arquiteto, engenheiro, topógrafo, sondagem de solo e projetos completos. Ainda assim, a casa precisa ser construída, pois morar é uma necessidade básica.
Este texto não substitui um profissional habilitado, nem transforma o leitor em engenheiro. O objetivo aqui é outro: orientar quais cuidados técnicos são prioritários quando os recursos são escassos, ajudando a reduzir riscos graves à segurança da família e a evitar erros que costumam gerar prejuízos irreversíveis.
Em termos simples: nem todos os serviços têm o mesmo nível de risco. Um erro na fundação ou na estrutura pode colocar vidas em perigo; já um erro em um revestimento de piso, embora indesejável, costuma gerar apenas retrabalho e custo adicional.
1) Serviços técnicos ESSENCIAIS (não devem ser ignorados)
Mesmo em uma obra com poucos recursos, alguns cuidados são considerados essenciais, pois estão diretamente ligados à segurança da edificação.
- Conferir medidas básicas do lote e relevo: medir o terreno com trena e verificar desníveis com mangueira de nível é muito menos preciso que um levantamento topográfico, mas evita erros grosseiros. É importante conferir se o terreno realmente possui as dimensões da matrícula e entender o relevo antes de definir o projeto.
- Observar o entorno: verificar a posição do Norte magnético (com bússola), existência de postes, árvores, bocas de lobo, construções vizinhas e limites aparentes do lote – informações relevantes para desenvolver o projeto da casa.
- Conhecer minimamente o solo: sempre que possível, verifique se algum vizinho realizou sondagem de solo e peça uma cópia. O perfil do solo não muda significativamente a pequenas distâncias. Outra alternativa é abrir manualmente um poço com 1,50 a 2,0 m de profundidade para verificar se há aterro, terra vegetal, solo mole ou presença de água.
- Anteprojeto de arquitetura: no mínimo, um desenho simples com planta baixa, cortes e fachada. Esse anteprojeto deve definir dimensões dos cômodos, pé-direito, níveis, forma da cobertura, local de caixa d’água, medidores e fossa (se houver). Detalhamentos finos podem ficar para depois, como especificação de portas, janelas, louças, ferragens, gradis, revestimentos, local de armários, forros e mobiliário.
- Alvará de Construção: toda obra regular precisa ser aprovada pela prefeitura. Construir sem alvará expõe o proprietário a multas, embargos e paralisações.
- Projeto de fundações e estrutural: mesmo que simples, não devem ser improvisados. Esses projetos garantem que a casa não sofra recalques, trincas estruturais ou, em casos extremos, colapso.
- Visitas técnicas pontuais: visitas esporádicas de um engenheiro para conferir fundações, formas, armações, escoramentos, instalações elétricas e drenagem; fazem uma enorme diferença na segurança da obra.
2) Serviços RECOMENDADOS (reduzem riscos e desperdícios)
Se houver alguma margem financeira adicional, os serviços abaixo aumentam significativamente a qualidade técnica da obra:
- Levantamento planialtimétrico cadastral: mais preciso que medições manuais, fornece informações essenciais sobre relevo, dimensões reais do lote e entorno.
- Sondagem de solo tipo SPT: conhecer as camadas do solo e sua resistência permite fundações mais seguras e, muitas vezes, mais econômicas.
- Projetos complementares: além da estrutura, recomenda-se projeto elétrico e de drenagem de águas pluviais, reduzindo riscos de choques elétricos, sobrecargas, infiltrações e erosões do solo.
3) ALERTAS IMPORTANTES (onde o improviso vira perigo)
- Planejar a casa pensando no crescimento futuro - muitas casas populares são construídas em etapas, primeiro um cômodo e um banheiro, depois a cozinha, um outro quarto, e assim por diante. Isso é normal — o problema é não prever esse crescimento.
- Não construa muros de arrimo sem projeto: se não houver recursos para projeto estrutural, evite esse tipo de obra. Muros de arrimo improvisados frequentemente desabam e causam acidentes graves.
- Muros de arrimo exigem drenagem: canaletas, tubos dreno e escadas hidráulicas são indispensáveis. A água da chuva é o principal fator de colapso dessas estruturas.
- Garagens subterrâneas exigem impermeabilização: paredes em contato com a terra são muros de arrimo e devem ser impermeabilizadas corretamente. Soluções improvisadas, como lona plástica, não resolvem o problema. A solução técnica é manta asfáltica aplicada pelo lado externo.
- Taludes devem ser dimensionados: inclinação, bermas e drenagem devem ser corretamente definidas para evitar deslizamentos.
- Terraplenagem é cara: mover terra envolve máquinas, caminhões e custos elevados. Sempre que possível, adapte o projeto ao relevo natural do terreno.
- Atenção ao peso da água: uma caixa d’água de 1.000 litros pesa cerca de 1.000 kg. Lajes e fundações que recebem esse carregamento precisam ser reforçadas.
- Não misturar concreto “no olho” sem critério. O traço do concreto deve ser medido em caixotes, veja o artigo https://mestredeobra.app/artigo.php?id=40 para maiores detalhes
- Se você precisa cortar árvore para executar a obra, dentro do lote ou na calçada, saiba que isto não é algo simples. Corte de árvores necessita de autorização legal, veja o artigo https://mestredeobra.app/artigo.php?id=14 para maiores detalhes
4) Conclusão: priorizar é diferente de improvisar
Construir com poucos recursos não significa construir sem critérios. Significa priorizar corretamente os recursos disponíveis. Mesmo sem condições de contratar todos os serviços técnicos, vale buscar ajuda pontual nos pontos críticos. Gastar pouco agora pode evitar perder tudo depois — ou colocar sua família em risco.
Engenharia mínima é sempre melhor do que engenharia nenhuma.
Artigos Relacionados: