Erros comuns na autoconstrução que colocam sua família em risco

erros comuns em autoconstrução

A autoconstrução faz parte da realidade brasileira. O problema não é construir com poucos recursos — o problema é repetir erros que já se mostraram perigosos, caros e, em alguns casos, fatais.

Este artigo lista erros comuns observados em loteamentos populares e comunidades, com o objetivo de alertar sobre o que NÃO FAZER e apresentar caminhos mais seguros dentro da realidade da autoconstrução.


1) Construir sem observar o entorno

Ignorar o que acontece ao redor do terreno é um erro clássico. Casas vizinhas com trincas, recalques, pisos afundados e infiltrações são alertas importantes. O solo não muda drasticamente de um lote para o outro. Se o vizinho tem problemas, você pode ter também.

Observe o que deu errado nas construções próximas e, se possível, procure orientação técnica para não repetir os mesmos erros.

Evite construir às margens de rios e córregos. Durante chuvas intensas, a vazão aumenta e a água ocupa áreas que normalmente parecem “seguras”, podendo literalmente varrer construções próximas ao leito.

Evite construir próximo a barrancos. Deslizamentos de terra representam riscos fatais. A tragédia da Região Serrana do Rio de Janeiro em 2011 (Teresópolis, Petrópolis e cidades vizinhas), com mais de 900 mortes, é um exemplo doloroso do que pode acontecer.


2) Copiar a fundação da casa do vizinho

“A casa do vizinho ficou de pé, então vou fazer igual.” Esse pensamento é perigoso. Cada casa tem peso diferente, cada lote pode ter sido aterrado com terra fofa em épocas distintas, e o relevo pode variar mesmo em pequenas distâncias.

Fundação errada raramente apresenta problemas no primeiro ano. Ela cobra a conta depois — com trincas, recalques e risco estrutural.

Na medida do possível, busque orientação técnica, nem que seja pontual, especificamente para fundações e estrutura. Esses são os elementos que garantem a estabilidade e a segurança da edificação.


3) Misturar concreto sem critério

Concreto “fraco” é um problema sério. Preparar concreto sem medir corretamente cimento, areia, pedra e água — ou misturar mal os materiais — resulta em baixa resistência e pouca durabilidade.

Concreto com excesso de água pode até facilitar a mistura dos componentes com pá e enxada, mas compromete drasticamente a resistência final.

Cura do concreto: após a concretagem, mantenha a superfície úmida por pelo menos 5 dias (molhe com mangueira). Isso é essencial, especialmente em lajes. A desforma não deve ocorrer antes de 21 dias. Veja como preparar concreto corretamente neste artigo: https://mestredeobra.app/artigo.php?id=40

Problemas comuns do concreto fraco:

  • trincas estruturais
  • desagregação do concreto
  • corrosão das armaduras

4) Apoiar paredes diretamente sobre a terra

Paredes sem fundação adequada transmitem carga diretamente ao solo, que pode ceder com o tempo. Isso gera trincas diagonais em paredes, portas e janelas ficam emperradas e trincas podem romper de canalizações.

Procure executar fundação contínua (sapata corrida) sob todas as paredes.


5) Improvisar nas instalações elétricas

Extensões permanentes, fios subdimensionados, emendas mal feitas e ausência de disjuntores são causas frequentes de incêndios residenciais. Eletricidade não dá segunda chance.

Na medida do possível, contrate um eletricista experiente, mesmo que apenas para orientar a execução básica e a organização do quadro elétrico.


6) Construir para cima sem reforçar a base

Muitas casas começam térreas e depois recebem um segundo ou até terceiro pavimento. O problema é que a fundação original não foi dimensionada para isso.

Esse erro pode causar colapso estrutural, colocando em risco a família e imóveis vizinhos.


7) Falta de drenagem e escoamento de água

A água é uma inimiga silenciosa da construção. Sem drenagem adequada, surgem umidade constante, mofo, fungos, erosão do solo e recalque de fundações.

Evite água escoando sobre a terra: chuva, esgoto a céu aberto ou água vinda do vizinho. A água carrega lentamente os grãos finos do solo, formando valas e, ao longo dos anos, tornam-se verdadeiras crateras.

Procure canalizar a água ou executar canaletas de concreto no local do escoamento (tipo meia-cana), para proteger o solo.

Evite construir próximo a canais de esgoto a céu aberto. O contato com esgoto doméstico causa doenças, e efluentes industriais podem conter substâncias altamente nocivas à saúde.


8) Cômodos insalubres e sem ventilação

Evite construir cômodos sem janelas, principalmente dormitórios. Ambientes salubres precisam de ventilação e iluminação natural.

A falta de ventilação favorece mofo, fungos, ácaros e acúmulo de CO₂, podendo causar ou agravar problemas respiratórios como asma, rinite e sinusite.

Exaustores e ventiladores podem ajudar, mas não substituem uma boa janela.


9) Utilizar materiais excessivamente baratos

Comprar materiais de construção baseando-se apenas no menor preço inicial costuma gerar prejuízos maiores a médio e longo prazo, resultando em retrabalho, baixa durabilidade e insegurança estrutural.

Exemplos comuns:

  • telhas de fibrocimento de 3 mm são baratas, mas não resistem à uma chuva de granizo, que ocorrem com certa frequencia nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste - com a quebra das telhas, a casa pode ficar alagada.
  • Blocos de concreto baratos muitas vezes são produzidos de forma artesanal, com baixo teor de cimento, o que os torna quebradiço - com grande perda durante o transporte e execução da paredes
  • Tijolo cerâmisco barato muitas vezes são produzidos com queima irregular ou insuficiente, tornando-se quebradiço
  • Argamassa de má qualidade provoca o descolamento de pisos e azulejos.
  • Tinta barata tem baixo poder de cobertura, exigindo a aplicação de várias demãos, gastando o dobro ou triplo do material e de mão de obra
  • Existem dezenas de exemplos semelhantes, como madeira verde para telhados, fios e cabos eletricos com isolação insuficiente ou "desbitolados (cabos que possuem menos cobre do que o anunciado), torneiras plásticas frágeis etc.

10) Problemas com umidade e falta de impermeabilização

Muitas casas são ocupadas antes da execução de pisos, impermeabilizações e revestimentos externos. Necessário observar que a insalubridade dos ambientes está na maioria das vezes relacionado à presença de umidade.

Impermeabilização de lajes: lajes a “espera” de um segundo pavimento deveriam ser impermeabilizadas, o que exige uma camada de regularização, impermeabilização com manta e uma camada de proteção da impermeabilização – serviços que envolvem um custo elevado. Se não for possível impermeabilizar da forma correta, um telhado provisório sobre a laje costuma ser mais barato e muito mais eficaz.

Impermeabilização de baldrames: as primeiras fiadas devem receber argamassa com aditivo hidrofugante e pintura com tinta betuminosa, evitando umidade ascendente nas paredes (internas e externas).

Revestimento externo: não é só estética. O revestimento protege a parede da água da chuva e mantém o interior seco e saudável.


Conclusão: construir é possível, improvisar é perigoso

Construir com poucos recursos é uma realidade brasileira. Construir sem nenhum critério técnico é um risco desnecessário.

Informação básica, planejamento mínimo e decisões conservadoras salvam dinheiro, tempo e vidas.

O Mestre de Obra existe para isso: traduzir a engenharia em linguagem simples e ajudar você a construir melhor, mesmo quando o orçamento é curto.

Acesse a seção de Artigos Técnicos do site e veja como executar cada tarefa da obra da forma correta: https://mestredeobra.app/Ajuda.php
E a seção Calculadora de Obra para verificar a quantidade de materiais necessários para cada serviço, junto com muitas dicas.

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