Por Eng. Renato Castanho Savio Publicado em Atualizado em

O que gasta mais na fase de fundação?

execução de fundação profunda

A fundação é a parte da obra responsável por transferir o peso da construção para o solo. Ela fica escondida depois da obra pronta, mas exerce uma das funções mais importantes de toda a edificação. Fundações inadequadas podem provocar problemas na edificação, como fissuras, recalques, portas emperradas, ruptura de tubulações e, em situações graves, comprometimento da segurança estrutural.

O tipo de fundação a ser utilizado depende principalmente de dois fatores: o porte da obra e as condições do solo. Portanto, nem sempre o construtor pode escolher livremente entre uma solução mais barata ou mais cara. É necessário calcular as cargas da edificação e verificar se o solo consegue suportá-las com segurança.

Em termos básicos, temos dois grandes grupos de fundações:

  • Fundações rasas: transferem as cargas da construção para as camadas superficiais do solo, normalmente por meio de sapatas, sapatas corridas ou radier.
  • Fundações profundas: levam as cargas até camadas mais profundas e resistentes, por meio de estacas, tubulões ou outros elementos enterrados.

Como as fundações rasas geralmente exigem escavações menos profundas e equipamentos mais simples, podem ser mais econômicas quando o solo e as cargas permitem sua utilização. O custo depende também de escavação, concreto, aço, contenções e condições de execução. Já as fundações profundas podem exigir máquinas, equipes especializadas, concreto e aço, além de atingir profundidades consideráveis, dependendo do solo e das cargas.

O porte da obra influencia diretamente

Quanto maior e mais pesada for a construção, maiores serão as cargas transmitidas ao solo.

Uma casa térrea geralmente possui cargas relativamente pequenas. Já um sobrado transmite mais peso às fundações. Um edifício com 10, 20 ou 40 pavimentos transfere cargas muito maiores e exige soluções estruturais mais complexas.

Dependendo das características do terreno, uma casa térrea ou um sobrado pode ser construído com fundações rasas. Mas isso não é uma regra automática. Mesmo uma casa pequena pode precisar de fundações profundas se estiver sobre aterro fofo, solo orgânico, argila mole ou terreno com baixa capacidade de suporte.

Por outro lado, edifícios com vários pavimentos normalmente utilizam fundações profundas, pois as cargas concentradas nos pilares são muito elevadas.

Uma obra pequena não garante fundação barata, e uma obra grande quase sempre exige maior investimento nessa etapa.

O solo pode ser o melhor amigo — ou o maior vilão do orçamento

O solo varia muito de uma região para outra. Podemos encontrar:

  • rochas e solos muito resistentes;
  • argilas duras e compactas;
  • areias densas;
  • aterros sem compactação adequada;
  • solos orgânicos;
  • argilas moles encontradas em vales, várzeas e áreas próximas a rios.

Em regiões com solo adequado próximo à superfície, as fundações podem ser mais econômicas, desde que as cargas, os recalques e as condições de execução permitam. Em regiões onde as primeiras camadas são fracas, pode ser necessário perfurar vários metros até encontrar uma camada capaz de suportar o peso da obra.

É por isso que duas casas idênticas, construídas em bairros diferentes, podem ter custos de fundação completamente distintos. A arquitetura pode ser igual, mas o que existe debaixo da terra muda o custo de construção, e por vezes, o prazo de execução.

O que mais pesa no custo das fundações?

Independentemente de a fundação ser rasa ou profunda, grande parte de sua estrutura é feita em concreto armado. Isso significa consumo de concreto, aço, formas, escavação e mão de obra.

Em geral, maiores consumos de concreto e aço elevam o custo desses insumos, mas o preço final também depende do método executivo, equipamentos, mão de obra e condições do terreno.

Em fundações profundas, entram ainda outros fatores:

  • mobilização do equipamento até a obra;
  • profundidade das estacas;
  • diâmetro das perfurações;
  • produtividade da máquina;
  • tipo de solo encontrado;
  • presença de água subterrânea;
  • dificuldade de acesso ao terreno;
  • necessidade de controle de vibração e ruído;
  • distância entre a obra e a empresa especializada.

Em condições favoráveis, a estaca escavada mecanicamente pode ser uma alternativa econômica, mas não é adequada a qualquer terreno. O equipamento funciona de forma parecida com um grande saca-rolhas, perfurando o solo com trado. Sua produtividade depende do diâmetro, profundidade, equipamento, acesso e estabilidade do furo. Não se deve adotar uma produção diária fixa sem avaliar as condições reais.

Já outros tipos de estacas têm produtividade menor, exigem procedimentos adicionais ou equipamentos mais sofisticados. Quanto mais lento e complexo for o processo, maior tende a ser o custo por metro executado.

Por que existem tantos tipos de estacas?

Não existe uma estaca “melhor para tudo”. Cada técnica possui vantagens, limitações e custos diferentes.

A escolha depende de fatores como:

  • tipo de solo;
  • profundidade da camada resistente;
  • nível do lençol freático;
  • carga da edificação;
  • espaço disponível para entrada de equipamentos;
  • proximidade de construções vizinhas;
  • limites de ruído e vibração;
  • altura de redes elétricas e outras interferências.

Estacas pré-moldadas, por exemplo, podem ter ótima resistência, mas sua cravação gera ruído e vibração. Em regiões com casas antigas ou construções sensíveis nas proximidades, os efeitos devem ser avaliados e controlados.

A estaca hélice contínua tem alta produtividade e produz pouca vibração, mas exige equipamento grande e acesso adequado. Já a estaca raiz pode ser executada em locais apertados e é muito usada para reforço de fundações, mas tem custo elevado.

Por isso, algumas soluções surpreendem o proprietário. Ele pode imaginar uma fundação simples e descobrir, após a sondagem, que será necessário utilizar equipamento específico, executar estacas profundas ou adotar uma técnica de custo mais alto.

Sondagem do solo: um pequeno investimento que pode evitar uma grande surpresa

Um dos métodos mais utilizados para investigação do subsolo é a sondagem à percussão com SPT (Standard Penetration Test). Ela fornece informações sobre a sequência de camadas e índices de resistência à penetração, em intervalos de ensaio definidos pelo procedimento técnico. Dependendo do terreno e da obra, podem ser necessárias investigações complementares.

Também permite verificar:

  • nível do lençol freático;
  • presença de aterros;
  • existência de solos moles ou orgânicos;
  • mudanças entre camadas arenosas, argilosas e siltosas;
  • eventuais blocos de rocha ou materiais difíceis de perfurar.

A sondagem à percussão utiliza equipamentos e equipe especializada, conforme o método de execução. Em pequenos lotes urbanos, três furos podem ser uma configuração frequente em determinadas situações, mas o número, a distribuição e a profundidade das sondagens devem atender ao programa de investigação e às normas aplicáveis. O prazo depende das condições de acesso, profundidade e solo.

O custo da investigação varia conforme a cidade, quantidade e profundidade dos furos, acesso, mobilização e condições do terreno. Solicite orçamento com escopo definido e data de referência, em vez de adotar um preço fixo para qualquer lote.

Comparado ao custo total da obra, esse valor é pequeno. E pode gerar uma economia muito maior, pois permite ao engenheiro dimensionar as fundações corretamente, sem exageros e sem riscos.

Sem sondagem, o projeto pode ficar conservador demais, gastando mais concreto e aço do que o necessário. Ou, pior, pode ficar insuficiente, criando risco de recalques e trincas.

Vale verificar o solo antes de comprar o lote?

Se você ainda não comprou o terreno, conhecer as condições do solo pode ser uma grande vantagem. Um lote aparentemente barato pode esconder uma fundação muito cara.

Em empreendimentos de maior porte, é comum o comprador pedir autorização ao proprietário para executar sondagens antes de fechar o negócio. O resultado do ensaio pode influenciar diretamente a decisão de compra ou o preço oferecido.

Em obras residenciais pequenas, pagar uma sondagem para cada terreno analisado pode não ser viável. Mas existem alternativas para obter indícios preliminares.

Peça sondagens de imóveis vizinhos

Converse com proprietários de casas ou prédios próximos. Muitas pessoas guardam a sondagem feita antes da obra e podem fornecer uma cópia.

É claro que o resultado do terreno vizinho não substitui a sondagem do seu lote. Mas, em regiões urbanas homogêneas, pode fornecer uma boa ideia inicial das condições encontradas nas proximidades.

Não tenha vergonha de pedir. Além de conhecer o solo, você já começa a conhecer seu futuro vizinho — duas investigações pelo preço de uma conversa.

Contrate uma visita técnica

Outra possibilidade é contratar um engenheiro experiente para visitar o terreno antes da compra. Uma inspeção visual não substitui a sondagem, mas pode identificar sinais importantes.

O engenheiro pode observar:

  • relevo do terreno e do bairro;
  • presença de áreas alagadas;
  • vegetação típica de solos úmidos;
  • taludes, escavações e cortes de terra próximos;
  • trincas e recalques em construções vizinhas;
  • aterros aparentes;
  • afloramentos de rocha.

Indícios que podem ser observados no local

Presença de taboa: a taboa é uma vegetação muito comum em áreas úmidas e alagadiças. Sua presença no lote ou nas proximidades pode indicar condições de umidade elevada, mas não comprova isoladamente a profundidade do lençol freático. A presença de água em escavações deve ser investigada, pois pode dificultar a execução das fundações.

Terrenos em vales: áreas mais baixas tendem a acumular água e sedimentos, podendo apresentar solos mais moles. Já terrenos em regiões elevadas muitas vezes possuem solos mais firmes, embora isso não seja uma regra absoluta.

Taludes e cortes de terra: escavações recentes em lotes vizinhos, obras viárias ou laterais de ruas podem expor o tipo de solo. É possível observar se ele parece argiloso, arenoso, compacto, fofo, úmido ou cheio de entulho.

Construções próximas: casas com trincas inclinadas, muros tombados, pisos afundados e portas emperradas podem indicar recalques ou problemas de fundação na região.

Histórico do endereço: em grandes cidades, certos bairros são conhecidos por várzeas, antigos aterros, mangues, áreas de mineração ou solos rochosos. Pesquisar a história da região pode fornecer informações valiosas.

Esses sinais ajudam na avaliação preliminar, mas não substituem a sondagem. Solo gosta de guardar segredos — e a única forma segura de conhecê-lo é investigar.

O barato pode estar no terreno mais caro

Ao comparar dois lotes, não observe apenas o preço de venda. Um terreno mais barato, mas com solo mole, forte declividade, lençol freático elevado ou necessidade de muros de arrimo pode gerar custos muito maiores na construção.

Um lote um pouco mais caro, mas plano e com solo resistente, pode resultar em fundações simples, menor movimentação de terra e obra mais econômica.

Portanto, o verdadeiro custo do terreno é:

preço de compra + custo para tornar o lote adequado à construção

Essa conta deve incluir fundações, terraplenagem, contenções, drenagem, retirada de rochas, muros divisórios e acessos.


Resumindo:

  • Em geral, obras com maiores carregamentos exigem fundações dimensionadas para esforços mais elevados.
  • Solos resistentes próximos à superfície permitem fundações rasas e normalmente mais econômicas.
  • Solos fracos podem exigir estacas profundas, aumentando muito o custo.
  • Profundidade, diâmetro, quantidade e tipo de estacas influenciam o consumo de materiais e o custo, conforme o sistema adotado.
  • Equipamentos especializados, mobilização e baixa produtividade encarecem a execução.
  • Lençol freático alto, acesso difícil e vizinhança sensível a vibrações limitam as técnicas disponíveis.
  • A investigação geotécnica adequada é fundamental para escolher e dimensionar uma fundação segura e economicamente racional; o SPT é um dos métodos disponíveis.
  • Antes de comprar um lote, observe o relevo, vegetação, construções vizinhas e, se possível, consulte sondagens próximas.
  • O terreno mais barato nem sempre resulta na obra mais barata.

O que mais pesa no custo das fundações não é apenas o tamanho da casa, mas aquilo que está escondido no solo. Um bom projeto, baseado em sondagem e desenvolvido por engenheiro, permite escolher a solução mais econômica sem abrir mão da segurança.

Fundação é investimento invisível: você não mostra para as visitas, não escolhe a cor e não publica foto depois de pronta. Mas é ela que mantém a obra segura.

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