Por Eng. Renato Castanho Savio Publicado em

Dimensionamento da rede de águas pluviais

escoamento de águas pluviais

A água da chuva parece inofensiva quando cai gota por gota. Mas, quando se concentra sobre telhados, lajes, ruas e grandes áreas de terreno, pode formar vazão capaz de causar erosões no solo, deslizamentos de taludes, queda de muros de arrimo e até danos às fundações e à estrutura de uma edificação.

Por isso, a rede de águas pluviais não deve ser tratada como um conjunto improvisado de calhas e tubos. Ela precisa ser dimensionada, detalhada em projeto e executada corretamente. A função do sistema é captar a água, conduzi-la com segurança, controlar sua velocidade e lançá-la em um local adequado, sem transferir o problema para o terreno vizinho ou para a rua.

Quanto maior a área de contribuição (maior terreno), maior será o volume de água concentrado. Em um lote residencial pequeno, um erro pode alagar a garagem, provocar infiltração ou problemas em muros de arrimos. Em condomínios implantados em glebas de 20.000 m² ou 30.000 m², ou em loteamentos com centenas de milhares de metros quadrados; o mesmo erro pode gerar enxurradas, erosões profundas e danos de grande proporção.

Em áreas extensas, até uma chuva moderada pode produzir grande vazão no ponto final de deságue. Nesses casos, podem ser necessárias galerias, canais, reservatórios de retenção, estruturas de concreto armado, dissipadores de energia e fundações próprias para as estruturas hidráulicas.

Como se calcula a vazão das águas pluviais?

O dimensionamento começa pela definição da intensidade da chuva de projeto. O engenheiro consulta dados pluviométricos da região para definir a intensidade da chuva, calcula a área que contribui para o escoamento e verifica as características da superfície.

Uma cobertura metálica, uma laje impermeabilizada ou um piso de concreto não absorvem água - quase toda a chuva se transforma em escoamento. Já um jardim, uma área de terra ou um pavimento drenante permitem que parte da água infiltre no solo.

Em termos simplificados, quanto maior for a intensidade da chuva e a área impermeável, maior será a vazão que as calhas, tubulações e demais dispositivos precisarão transportar.

O cálculo também considera o nível de segurança necessário. Um problema em uma pequena cobertura residencial tem consequências diferentes de um hospital, indústria ou passagem subterrânea. Por isso, a chuva adotada em projeto e o período de retorno devem ser definidos pelo profissional responsável, conforme a norma técnica e as exigências municipais.

Não é correto escolher o diâmetro do tubo apenas porque “sempre se usou 100 mm”. Um tubo pode atender uma pequena cobertura e ser completamente insuficiente para uma grande laje ou pátio impermeabilizado.

A água e os muros de arrimo

escoamento de águas pluviais em muro de arrimo

Um dos motivos frequentes de queda de muros de arrimo é a deficiência da drenagem no terreno contido. Para entender o problema, precisamos observar como o solo se comporta.

O solo é formado por partículas de diferentes tamanhos. Entre essas partículas existem vazios. Quando o solo está relativamente seco, parte dos vazios contém ar. Quando encharcado, esses espaços passam a ser preenchidos, total ou parcialmente, pela água.

Com a saturação, o peso da terra contida pelo muro aumenta e surge a chamada pressão da água nos poros, ou "poropressão". Além de acrescentar carga, essa pressão reduz parte da resistência interna do solo e aumenta o esforço horizontal sobre o muro.

Não se deve simplesmente somar o peso específico integral da água ao peso do solo, pois a quantidade de água depende do volume de vazios e do grau de saturação. Mas o efeito é real: um aterro encharcado exerce esforços muito maiores do que o solo seco e pode comprometer a estrutura do muro.

Por isso, um muro de arrimo deve contar com soluções como:

  • camada drenante de pedra ou brita atrás do muro;
  • manta geotêxtil para impedir que partículas finas obstruam a drenagem;
  • tubos perfurados no pé do aterro;
  • barbacãs no muro, quando previstos no projeto;
  • canaletas na parte superior para impedir a entrada de água no aterro;
  • saída segura para a água captada.

Executar apenas o concreto do muro e esquecer a drenagem é como construir um barco resistente e deixar um pequeno furo no casco. O problema talvez não apareça no primeiro dia, mas a água encontrará o ponto fraco e pode afundar o barco.

Erosão e solapamento das fundações

A água em movimento transporta materiais. Uma enxurrada pode carregar folhas, embalagens, galhos e até objetos pesados. Ao correr sobre o solo, também remove partículas de areia, e partes finas do solo, como silte e argila.

Quando esse escoamento passa repetidamente junto ao pé de um muro ou de uma fundação, vai escavando o terreno. Esse processo pode provocar o solapamento, que é a retirada do solo que servia de apoio à estrutura.

O problema não exige necessariamente uma grande enchente. Um pequeno vazamento ou fluxo contínuo pode carregar partículas finas durante anos. Formam-se vazios subterrâneos que aumentam lentamente, até ocorrer um afundamento repentino do piso ou do terreno.

Os sinais podem aparecer na edificação como:

  • trincas diagonais nas paredes;
  • pisos afundados;
  • muros inclinados;
  • portas e janelas emperradas;
  • vazios sob calçadas;
  • ruptura de tubulações enterradas.

Por isso, a água deve ser conduzida por tubulações, canaletas ou superfícies protegidas. Não permita que descidas de calhas descarreguem diretamente sobre a terra ao lado das fundações.

Caimento dos pisos externos

inseto caminhando sobre a superfície da água

A água possui uma propriedade chamada tensão superficial. As moléculas próximas à superfície se atraem e formam uma espécie de película. É esse fenômeno que permite a alguns insetos caminhar sobre a água.

Em pisos quase planos, a tensão superficial, a rugosidade e as pequenas irregularidades dificultam o escoamento. Por isso, todo piso externo deve ter um caimento para evitar empoçamento de água.

Na prática, costuma-se adotar:

  • pisos externos: caimento em torno de 1% ou superior, conforme acabamento e uso;
  • boxes e áreas molhadas: caimentos maiores podem ser necessários para conduzir rapidamente a água ao ralo;
  • gramados: aproximadamente 2%, para evitar depressões encharcadas;
  • canaletas e sarjetas: o valor deve ser calculado conforme o comprimento, seção, rugosidade e velocidade desejada.

Um caimento de 1% significa uma diferença de altura de 1 cm a cada metro. Parece pouco, mas em um piso com 10 metros de comprimento representa 10 cm de desnível.

Declividades pequenas, como 0,5%, podem funcionar tecnicamente em determinados canais e tubulações, mas exigem grande precisão na execução. Uma irregularidade de poucos milímetros pode criar pontos de empoçamento. Quando houver espaço e compatibilidade com o projeto, adotar inclinação um pouco maior melhora a tolerância construtiva.

Declividade das tubulações

Os condutores horizontais precisam de inclinação contínua no sentido do escoamento. Normas técnicas para instalações prediais admite declividade mínima da ordem de 0,5%, mas o valor da declividade deve ser analisada, dimensionada em função da velocidade de esvcoamento e preferencialmente, constar no projeto das instalações hidráulicas.

Em alguns casos, utiliza-se 1% ou mais para aumentar a velocidade e reduzir o risco de acúmulo de sedimentos no interior das tubulações. Se não quiser ter problemas no escoamento e se o projeto permitir, instale com caimento mínimo de 2%.

A rede de águas pluviais pode transportar:

  • folhas;
  • terra;
  • areia;
  • pequenos galhos;
  • fragmentos de telhas e argamassa;
  • resíduos trazidos pelo vento.

Por isso, além da declividade, o projeto deve prever pontos de inspeção e limpeza. Uma tubulação muito comprida, enterrada e sem caixas intermediárias pode se transformar em um grande problema quando entupir.

Também é necessário conferir as cotas. Em uma rede com 100 metros, uma inclinação de 1% gera diferença de nível de 1 metro. Somando o recobrimento inicial da tubulação e as dimensões das caixas, o trecho final pode ficar bastante profundo.

Como instalar tubulações enterradas?

Grande parte da rede fica escondida no solo. Esse fato exige atenção especial, pois vazamentos e deformações não serão facilmente percebidos depois do reaterro.

Uma execução cuidadosa segue, de forma geral, esta sequência:

  1. Escavação e regularização: a vala deve ter largura suficiente para montagem da tubulação, conferência e acomodação do tubo.
  2. Preparação do fundo: retire pedras, entulho e pontos de solo fofo. Regularize e compacte o fundo sem deixar ressaltos.
  3. Berço de assentamento: coloque uma camada de areia ou material granular selecionado, normalmente com alguns centímetros de espessura, ou conforme indicado no projeto.
  4. Conferência da declividade: verifique as cotas com mangueira de nível, laser ou equipamento topográfico. Não confie apenas na aparência da vala.
  5. Montagem das juntas: limpe as pontas e bolsas dos tubos, utilize os anéis, adesivos ou sistemas recomendados pelo fabricante e confira o encaixe.
  6. Envolvimento lateral: preencha cuidadosamente as laterais do tubo com material adequado (usualmente areia média), evitando vazios.
  7. Recobrimento inicial: use areia ou material fino selecionado até uma altura segura acima da geratriz superior do tubo, sem lançar pedras sobre a tubulação.
  8. Compactação controlada: compacte as laterais e as camadas superiores sem aplicar impacto direto capaz de esmagar ou deslocar o tubo. Areias podem ser adensadas por água e vibração
  9. Reaterro final: complete a vala em camadas, utilizando material apropriado (se possivel o material retirado da escavação) e compacte o solo de acordo ao uso da superfície.

Encharcar areia pode auxiliar sua acomodação, mas não deve ser tratado como substituição da compactação.

Tubulações sob áreas de veículos

Quando a rede passa sob garagens, vias internas ou pátios de caminhões, precisa resistir às cargas transmitidas pelos veículos.

O recobrimento mínimo depende do solo, diâmetro e material do tubo, compactação e carga dos veículos. Valores como 60 cm a 80 cm para veículos leves e 1,00 m ou mais para tráfego pesado são usados como referências, mas não substituem a orientação do fabricante e o cálculo do projeto.

Quando não for possível obter recobrimento suficiente, podem ser necessárias soluções como:

  • tubos de classe mais resistente;
  • envelopamento em concreto;
  • lajes de proteção;
  • alteração do traçado;
  • estruturas de distribuição das cargas.

Outro cuidado é não executar emendas exatamente nos locais de maior solicitação ou em pontos sujeitos a recalques diferenciais.

Teste antes de esconder

Antes de cobrir a rede, confira:

  • declividade e cotas das tubulações;
  • sentido do fluxo;
  • alinhamento dos tubos;
  • encaixe das juntas;
  • posição e acessibilidade das caixas;
  • existência de deformações;
  • escoamento até o ponto de lançamento.

Uma verificação simples com água pode revelar contracaimentos, empoçamentos e obstruções. Em redes maiores, o projeto pode exigir ensaios, inspeção por câmera e levantamento topográfico da tubulação executada.

Depois que o piso, o jardim ou o pavimento estiverem prontos, localizar e corrigir um defeito será muito mais caro.

Para onde a água deve ir?

Captar a água é apenas metade do trabalho. O sistema precisa lançá-la em local permitido e preparado para receber a vazão.

A água não deve ser simplesmente direcionada para o lote vizinho, lançada sobre uma encosta desprotegida ou despejada com grande velocidade sobre o solo.

Conforme o município e as condições do imóvel, o destino pode ser:

  • rede pública de drenagem;
  • sarjeta, quando legalmente permitido;
  • córrego ou canal autorizado;
  • reservatório de retenção;
  • sistema de infiltração;
  • estrutura de dissipação e lançamento.

Em áreas urbanas, a Prefeitura pode limitar a vazão liberada para a rua, exigindo reservatórios que armazenam temporariamente a chuva e a liberam aos poucos; como definido na Lei das Piscininhas na cidade de São Paulo


Resumo

  • A rede deve ser dimensionada pela intensidade da chuva, área de contribuição e características das superfícies.
  • Quanto maior a área impermeável, maior será a vazão concentrada.
  • Água acumulada atrás de muros aumenta os esforços e pode provocar colapso.
  • Descargas sobre o solo podem causar erosão e solapamento de fundações.
  • Pisos externos precisam de caimento contínuo até os pontos de captação.
  • Condutores horizontais precisam de declividade minima para facilitar o escoamento e evitar obstrução por detritos que escoam junto com as águas pluviais.
  • Redes de drenagens extensas precisam de caixa de inspeção para permitir limpeza e remoção de detritos.
  • Tubos enterrados devem ser apoiados em superficie regularizada, envolvidos por material adequado e protegidos contra sobrecargas.
  • A rede de drenagem deve ser conferida e testada antes do reaterro.
  • O local de lançamento precisa suportar a vazão sem causar erosões ou prejuízos a terceiros.

Uma rede de águas pluviais bem executada costuma passar despercebida: chove, a água escoa e ninguém fala sobre ela. Já uma rede mal projetada faz questão de aparecer — normalmente durante a tempestade, quando não há tempo para procurar o engenheiro, o encanador ou uma bomba de drenagem.

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