Por Eng. Renato Castanho Savio Publicado em

Concreto leve – o que é e onde usar?

operário lançando concreto leve sobre laje treliçada

Na engenharia do século XXI, a verdadeira força de um material não está apenas em sua densidade ou peso, mas na capacidade de tornar toda a estrutura mais eficiente. O concreto leve reduz cargas permanentes e pode permitir estruturas, fundações e reformas muito mais inteligentes.

Quando pensamos em concreto, normalmente imaginamos um material pesado. E realmente é: um concreto convencional armado costuma ter massa específica da ordem de 2.400 kg/m³.

Isso significa que apenas 1 m³ de concreto pesa aproximadamente 2,4 toneladas.

Agora imagine uma laje, um enchimento ou um pavimento inteiro. Boa parte do esforço que pilares e fundações precisam suportar não vem de móveis, pessoas ou equipamentos, mas do peso da própria construção.

É justamente aí que entra o concreto leve.

De forma geral, chamamos de concreto leve aquele que possui massa específica significativamente menor que a do concreto convencional. Dependendo do sistema empregado, encontramos misturas com aproximadamente 1.200 a 2.000 kg/m³ e concretos destinados apenas a enchimentos ou isolamento com densidades até inferiores a 1.000 kg/m³.

Essa redução é obtida principalmente substituindo os agregados convencionais (pedra) por materiais mais leves ou criando vazios controlados dentro da própria massa.

Como o concreto fica mais leve?

Um concreto convencional é produzido basicamente com:

  • cimento;
  • areia;
  • brita;
  • água;
  • eventualmente aditivos.

A areia e principalmente a brita representam grande parte da massa do concreto. Portanto, uma das maneiras mais simples de reduzir o peso é substituir parte desses agregados por materiais de menor densidade.

Existem três grandes famílias de concreto leve.

1. Concreto com agregados leves

Nesse sistema, a brita convencional é substituída total ou parcialmente por materiais mais leves.

Entre os exemplos estão:

  • argila expandida;
  • vermiculita;
  • perlita expandida;
  • EPS, conhecido popularmente como isopor;
  • alguns agregados minerais porosos produzidos industrialmente.

Uma das soluções mais conhecidas é a argila expandida.

Ela é produzida aquecendo argilas apropriadas em altas temperaturas. Durante o processo, formam-se pequenas esferas ou grãos cerâmicos com uma casca relativamente resistente e interior cheio de poros.

O resultado parece uma pequena pedra, mas pesa muito menos que uma brita convencional.

Esses grãos podem substituir parte ou toda a brita na produção do concreto.

2. Concreto celular ou aerado

Outra maneira de reduzir o peso é introduzir uma grande quantidade de pequenas bolhas de ar dentro da massa.

Isso pode ser feito por meio de:

  • espumas produzidas previamente;
  • agentes espumantes;
  • reações químicas que geram gás;
  • processos industriais específicos.

Esses vazios reduzem drasticamente a densidade.

O concreto celular é muito utilizado como enchimento, regularização, isolamento e fabricação de blocos leves.

Existem inclusive produtos extremamente leves que podem apresentar massa específica inferior à metade daquela de um concreto convencional.

Porém, quanto mais vazios são incorporados, menor tende a ser a resistência mecânica. Portanto, muitos concretos celulares não devem ser considerados estruturais.

3. Concreto sem finos

Existe ainda o chamado concreto sem finos.

Nesse caso, reduz-se ou elimina-se o agregado miúdo, normalmente a areia.

A pasta de cimento envolve os agregados graúdos, mas não preenche completamente os espaços existentes entre eles.

O resultado é uma estrutura com muitos vazios internos e consequentemente menor peso.

Dependendo da composição, o material também pode apresentar elevada permeabilidade, característica aproveitada em alguns pavimentos drenantes.

Concreto leve estrutural é outra conversa

Aqui está uma distinção importante.

Um concreto com EPS utilizado para preencher um desnível de piso pode ser muito leve, mas sua função é apenas ocupar espaço.

Já uma viga, pilar ou laje precisa resistir a esforços.

O concreto leve estrutural combina uma massa específica reduzida com resistência suficiente para participar da estrutura.

Como referência internacional, o ACI considera concreto estrutural leve aquele produzido com agregados leves, apresentando massa específica seca ao ar não superior a aproximadamente 1.850 kg/m³ e resistência à compressão aos 28 dias superior a aproximadamente 17 MPa.

Isso mostra que é perfeitamente possível produzir um concreto simultaneamente leve e resistente.

Mas ele precisa ser projetado para isso.

Substituir a brita altera a resistência?

Sim.

Os agregados fazem parte do comportamento mecânico do concreto. Quando substituímos uma brita densa e resistente por um material poroso e mais leve, alteramos várias propriedades da mistura.

Podem mudar:

  • resistência à compressão;
  • módulo de elasticidade;
  • deformações;
  • retração;
  • absorção de água;
  • aderência com as armaduras;
  • comportamento ao fogo;
  • peso próprio.

Por isso, não se deve pegar um projeto calculado para concreto convencional e simplesmente decidir durante a obra: “Vamos colocar argila expandida porque fica mais leve.”

Se o concreto tiver função estrutural, a utilização do agregado leve deve estar prevista pelo engenheiro estrutural e considerada nos cálculos e no traço.

Já quando o material é apenas um enchimento sobre uma laje, a preocupação é diferente: precisamos garantir que ele tenha resistência suficiente para sua função e, principalmente, que sua carga tenha sido corretamente considerada.

A grande vantagem: diminuir o peso próprio

Imagine uma área de 100 m² recebendo um enchimento com 10 cm de espessura.

O volume será: 100 m² × 0,10 m = 10 m³

Se utilizarmos um material com densidade de 2.000 kg/m³, teremos aproximadamente: 20 toneladas

Se o material tiver 800 kg/m³: 8 toneladas

A diferença é de 12 toneladas permanentemente apoiadas sobre a estrutura.

É como retirar vários automóveis de cima da laje.

Essa redução pode refletir em:

  • menores esforços nas lajes;
  • menores cargas em vigas;
  • menores esforços nos pilares;
  • redução das cargas nas fundações;
  • maior facilidade para reformas e ampliações.

Por isso, reduzir peso em um pavimento alto pode gerar benefícios que se propagam por toda a estrutura até chegar às fundações.

Onde o concreto leve é mais utilizado?

Uma das aplicações mais comuns é em enchimentos e regularizações de piso.

Imagine uma laje onde seja necessário elevar o piso em 15 ou 20 cm para criar caimentos ou passar instalações. Preencher todo esse volume com concreto convencional acrescentaria uma carga permanente enorme e desnecessária.

Nesse caso, pode-se utilizar um concreto leve e executar apenas a camada final adequada ao revestimento.

Outras aplicações comuns incluem:

  • regularização de lajes;
  • enchimentos de grandes espessuras;
  • contrapisos leves;
  • correção de níveis;
  • enchimento sobre abóbadas e estruturas antigas;
  • coberturas;
  • terraços;
  • áreas sobre estruturas existentes;
  • painéis de vedação;
  • blocos leves;
  • elementos pré-moldados.

Em lajes e balanços, cada quilo importa

O concreto leve pode ser especialmente interessante em balanços.

Uma sacada ou laje em balanço precisa resistir não apenas às pessoas e móveis, mas também ao próprio peso.

Quanto mais pesada for a camada de enchimento, revestimento ou regularização colocada sobre ela, maior será o momento atuante na região de apoio.

Reduzir alguns milhares de quilos pode ser bastante vantajoso.

Mas atenção: se o concreto leve fizer parte da própria estrutura resistente, seu uso precisa constar do projeto estrutural.

Uma coisa é utilizar material leve sobre uma laje calculada. Outra é modificar o concreto que forma a própria laje.

EPS: concreto com “isopor”

O EPS é formado por pequenas esferas extremamente leves.

Quando incorporadas a uma mistura de cimento e outros componentes, essas partículas substituem parte dos agregados tradicionais e produzem concretos de baixíssima massa específica.

É bastante interessante para:

  • enchimentos;
  • regularizações;
  • criação de caimentos;
  • preenchimento de espaços sem função estrutural;
  • camadas de isolamento.

Por outro lado, concretos com grandes quantidades de EPS geralmente apresentam resistência muito inferior à de um concreto estrutural convencional.

Portanto, aquela mistura extremamente leve que parece maravilhosa para preencher 20 cm sobre uma laje provavelmente não é o material adequado para executar um pilar.

Cada material tem sua profissão. Não coloque o enchimento para trabalhar de engenheiro estrutural.

Argila expandida

A argila expandida é provavelmente o agregado leve mais conhecido na construção brasileira.

Pode ser utilizada solta ou incorporada a concretos e argamassas.

Uma característica importante é sua estrutura interna porosa, que reduz bastante a massa específica.

Dependendo do traço e do tipo de agregado utilizado, podem ser produzidos desde concretos de enchimento até concretos leves com função estrutural.

Porém, agregados leves porosos absorvem água de maneira diferente de uma brita convencional. A umidade do agregado precisa ser considerada no desenvolvimento do traço para não alterar inesperadamente a quantidade efetiva de água da mistura.

Em concretos estruturais especiais, pode inclusive ser necessário realizar pré-umidificação controlada do agregado.

Isolamento térmico

Materiais com grande quantidade de pequenos vazios normalmente apresentam menor condutividade térmica que materiais densos.

Por isso, concretos leves podem oferecer vantagens em:

  • coberturas;
  • paredes;
  • blocos;
  • camadas de enchimento.

Uma cobertura com concreto leve e isolamento adequado pode reduzir a transferência de calor para os ambientes inferiores.

Porém, o desempenho térmico depende do conjunto completo: espessura, densidade, revestimentos, ventilação, cor da cobertura e demais camadas.

Não basta substituir uma brita por argila expandida e esperar que a casa se transforme automaticamente em uma garrafa térmica.

E o isolamento acústico?

A questão acústica merece cuidado.

Materiais porosos podem ajudar na absorção de determinadas frequências e alguns sistemas leves possuem bom desempenho quando combinados em várias camadas.

Entretanto, para bloquear a passagem de ruídos, a massa também é importante.

Por isso, simplesmente diminuir o peso de uma parede ou piso não significa melhorar automaticamente o isolamento acústico.

O desempenho precisa ser analisado considerando o sistema completo, inclusive contrapiso, revestimentos, mantas acústicas, paredes e juntas.

Vantagens do concreto leve

  • Menor peso próprio: reduz cargas permanentes sobre a estrutura.
  • Possível redução das fundações: quando previsto desde o projeto estrutural.
  • Facilidade de transporte: principalmente para agregados e componentes leves.
  • Bom desempenho térmico: alguns tipos possuem baixa condutividade térmica.
  • Excelente para enchimentos: permite preencher grandes volumes sem sobrecarregar excessivamente as lajes.
  • Interessante em reformas: ajuda a limitar novas cargas sobre estruturas antigas.
  • Possibilidade de bombeamento: vários concretos leves podem ser projetados para aplicação mecanizada.

Desvantagens e cuidados

  • alguns tipos possuem resistência mecânica muito inferior ao concreto convencional;
  • agregados leves podem absorver bastante água;
  • o controle da mistura pode ser mais delicado;
  • determinados concretos leves apresentam maior retração;
  • o módulo de elasticidade pode ser menor;
  • materiais extremamente leves não devem ser utilizados estruturalmente sem projeto específico;
  • alguns agregados possuem custo superior ao da brita convencional;
  • o comportamento durante bombeamento e lançamento precisa ser estudado;
  • a resistência superficial de concretos usados em contrapisos deve ser compatível com o revestimento final.

Outro cuidado é evitar segregação. Em algumas misturas, os agregados muito leves tendem a subir, enquanto componentes mais pesados tendem a descer.

Por isso, o traço, a consistência, o tempo de mistura e o procedimento de lançamento precisam ser adequados ao material escolhido.

Concreto leve em reformas

Uma das aplicações mais interessantes ocorre em edifícios antigos.

Imagine que seja necessário nivelar uma laje existente colocando 15 cm de enchimento.

Antes de despejar concreto convencional, é preciso perguntar:

a estrutura foi projetada para receber todo esse peso adicional?

Em reformas, não se deve presumir que uma laje aguenta qualquer nova carga só porque está funcionando há décadas.

Um enchimento leve pode reduzir muito a carga acrescentada.

Na restauração da Casa Museu Gaudí, em Barcelona, por exemplo, foi desenvolvido concreto leve autoadensável com argila expandida para substituir enchimentos existentes e melhorar o comportamento do sistema de piso. A mistura atingiu densidade próxima de 1.600 kg/m³ e resistência superior a 17 MPa aos 28 dias.

É um ótimo exemplo de como diminuir peso pode ser mais importante do que simplesmente aumentar resistência.

Antes de usar, descubra qual função o material terá

Esta pergunta resolve grande parte das dúvidas:

O concreto leve vai apenas preencher espaço ou vai sustentar cargas?

Se for um enchimento, as exigências de resistência podem ser relativamente baixas.

Se vai receber revestimento, é preciso avaliar sua resistência superficial e a solução do contrapiso.

Se fizer parte de uma laje, viga, pilar ou outro elemento resistente, estamos falando de concreto estrutural e o engenheiro precisa especificar:

  • massa específica;
  • resistência;
  • tipo de agregado;
  • módulo de elasticidade;
  • propriedades de projeto;
  • controle tecnológico necessário.

Não existe uma receita universal de concreto leve.

Uma mistura para preencher um piso e outra destinada a uma viga podem ter aparência semelhante enquanto estão frescas, mas possuem responsabilidades completamente diferentes.


Resumo

  • Concreto leve possui massa específica inferior à do concreto convencional.
  • Um concreto convencional pesa aproximadamente 2.400 kg/m³.
  • Concretos leves podem ficar abaixo de 2.000 kg/m³ e, em aplicações não estruturais, até abaixo de 1.000 kg/m³.
  • Nem todo concreto leve é estrutural.
  • A redução de peso pode ser obtida utilizando argila expandida, EPS, vermiculita, perlita ou outros agregados leves.
  • Concretos celulares reduzem densidade através da incorporação controlada de vazios.
  • Concreto sem finos elimina ou reduz a areia, criando espaços vazios entre os agregados.
  • A argila expandida é um dos agregados leves mais utilizados.
  • A substituição dos agregados altera propriedades mecânicas e deve ser considerada pelo engenheiro quando o concreto tiver função estrutural.
  • Uma das maiores vantagens é diminuir as cargas permanentes sobre lajes, vigas, pilares e fundações.
  • É muito útil em enchimentos, regularizações, contrapisos, coberturas e reformas.
  • Em balanços e estruturas existentes, a redução do peso pode trazer benefícios importantes.
  • Alguns concretos leves apresentam bom desempenho térmico.
  • Menor peso não significa automaticamente melhor isolamento acústico.
  • Agregados leves podem exigir cuidados especiais com absorção de água, mistura e lançamento.
  • Concreto extremamente leve não deve ser utilizado estruturalmente apenas porque “parece resistente”.

O concreto tradicional conquistou o mundo porque combina pedra, areia, cimento e água em um material extremamente versátil. O concreto leve acrescenta outra variável a essa equação: usar apenas o peso realmente necessário para cumprir determinada função.

Em muitas obras, transportar e sustentar toneladas de material apenas para preencher um espaço não faz sentido.

Às vezes, retirar peso de uma laje permite economizar nas vigas. Vigas mais leves reduzem cargas nos pilares. Pilares menos carregados aliviam as fundações.

Na estrutura, peso também custa dinheiro. E o concreto leve mostra que, em determinadas situações, ser mais leve é justamente uma forma inteligente de ser mais forte.

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