Ventos fortes são um problema para obra
Uma edificação pronta é projetada para resistir à ação do vento. Já uma obra em andamento é formada por estruturas incompletas, instalações provisórias, tapumes, telhas leves e frágeis, painéis de madeira, lonas e materiais espalhados pelo canteiro. Por isso, uma ventania que não causa qualquer dano à uma edificação concluída pode transformar o canteiro de obras em um verdadeiro campo de objetos voadores.
No Brasil, os efeitos do vento sobre as edificações são calculados conforme a ABNT NBR 6123:2023 — Forças devidas ao vento em edificações. A norma apresenta um mapa, formado por linhas que indicam regiões com velocidades de ventos semelhantes.
Em grande parte do país, a velocidade básica indicada no mapa fica na ordem de 30 m/s a 45 m/s, o equivalente aproximado a 108 km/h a 162 km/h. Esses números mostram que o vento utilizado no projeto estrutural não é aquela brisa agradável que entra pela janela: trata-se de uma rajada intensa, capaz de provocar grandes esforços sobre fachadas, telhados e estruturas.
Em 29/07/2026, a cidade de Santos registrou rajada máxima de 111,8 km/h, segundo boletim oficial da Defesa Civil municipal. Eventos dessa intensidade mostram que ventos próximos das velocidades consideradas nos projetos estruturais podem atingir áreas urbanas e provocar quedas de árvores, placas, danos em coberturas e interrupções de serviços.
O que é a velocidade básica do vento?
A velocidade básica do vento, identificada pela letra V0, é definida como a velocidade de uma rajada com duração de 3 segundos, medida a 10 metros acima do terreno, em campo aberto e plano, que ocorre em média, uma vez a cada 50 anos.
O valor da velocidade básica não é utilizado sozinho no projeto. Para encontrar a velocidade aplicável à edificação, o engenheiro considera alguns fatores de ajustes:
- Fator S1 — Topografia da região: considera se a construção está em terreno plano, encosta, vale ou topo de morro. Uma edificação no alto de uma elevação pode ficar mais exposta ao vento.
- Fator S2 — Rugosidade, altura e dimensões das fachadas: considera se o entorno é aberto ou ocupado por árvores e construções, além da altura e do tamanho da própria edificação.
- Fator S3 — Estatístico: considera o grau de segurança necessário e o tipo de ocupação, diferenciando, por exemplo, construções comuns de edificações essenciais (hospitais, por exemplo).
Se uma construção pronta apresentar danos estruturais durante ventos inferiores aos previstos em projeto, isso pode indicar falha de projeto, execução, manutenção ou fixação de componentes. Contudo, a causa deve ser investigada tecnicamente. Não basta comparar a velocidade divulgada em uma notícia com o valor do mapa, pois a intensidade real no ponto da edificação, a direção da rajada e as condições locais também influenciam.
A obra ainda não é a edificação pronta
Durante a construção, muitos elementos ainda não alcançaram sua condição definitiva de resistência. Uma parede pode estar sem o travamento das lajes, uma estrutura metálica pode estar parcialmente montada e uma cobertura pode ter telhas posicionadas, mas ainda sem todas as fixações.
Além disso, o canteiro possui instalações normalmente provisórias:
- barracões de madeira para ferramentas e materiais;
- abrigos para carpintaria e central de armação;
- tapumes de fechamento do terreno;
- placas de identificação da obra;
- andaimes e plataformas;
- lonas para proteção de areia, cimento e equipamentos;
- tábuas e painéis de compensado utilizados em fôrmas;
- telhas e peças de cobertura ainda não fixadas;
- chapas metálicas, perfis e materiais leves.
Esses elementos possuem grande área exposta e pouco peso. Quando o vento encontra uma lona ou uma chapa, ela funciona como a vela de um barco. O problema é que esse “barco” não navega - a peça é arrancada e lançada contra pessoas, veículos, imóveis vizinhos ou redes elétricas.
As instalações provisórias também precisam ser estáveis e corretamente ancoradas. O fato de o barracão permanecer na obra por apenas alguns meses não significa que possa ser construído de qualquer maneira.
Telhas e coberturas são especialmente vulneráveis
Telhas leves, principalmente as metálicas e de fibrocimento, podem ser arrancadas quando ainda não estão devidamente parafusadas. Mesmo telhas cerâmicas e de concreto podem se deslocar em rajadas intensas, especialmente nas bordas e cantos do telhado.
A força do vento não atua apenas empurrando a cobertura. Dependendo da direção e do formato da construção, pode criar uma pressão negativa, como uma sucção, tentando levantar as telhas.
Por isso, durante a montagem da cobertura:
- não deixe grande quantidade de telhas soltas sobre o telhado;
- execute as fixações conforme orientação do fabricante;
- conclua travamentos, rufos e peças de borda o quanto antes;
- interrompa o serviço se as rajadas dificultarem o equilíbrio dos trabalhadores;
- não utilize telhas soltas como peso sobre lonas.
Uma telha lançada pelo vento deixa de ser material de construção e vira praticamente um projétil.
Tapumes, placas e barracões
O tapume é uma superfície extensa e relativamente leve. Se estiver mal fixado, o vento pode tombar painéis inteiros sobre a calçada, veículos ou pedestres.
A mesma atenção vale para placas da obra, anúncios, telas de proteção e fechamentos provisórios. Pontaletes devem estar firmemente enterrados ou ancorados com concreto, e os painéis precisam de travamentos horizontais e diagonais.
Nos barracões, a estrutura de madeira deve ter contraventos e a cobertura corretamente fixada. Pregos insuficientes ou madeira deteriorada pela chuva reduzem muito a resistência.
Não é porque a construção é provisória que pode ser aml feita, pois o acidente pode ser fatal.
Lonas e materiais leves
Lonas plásticas são muito úteis para cobrir cimento, areia, ferramentas e serviços recém-executados. Porém, precisam ser presas em vários pontos, utilizando amarrações resistentes ou pesos distribuídos. Amarrar apenas os quatro cantos pode não ser suficiente. O vento entra por baixo, infla a lona e aumenta bastante a força sobre as amarrações.
Compensados de madeira, folhas de porta, chapas de isolamento e embalagens vazias também devem ficar armazenados horizontalmente, eventualmente amarrados ou em recinto fechado. Evite deixar materiais leves sobre lajes, andaimes e pavimentos elevados após o expediente.
Uma regra prática é simples: se uma pessoa consegue carregar a peça com facilidade, uma rajada de vento forte também consiga.
Poeira e perda de visibilidade
Em períodos secos, a ventania pode levantar grande quantidade de poeira do solo em áreas abertas ou onde foram realizadas obras de terraplenagem. Além do desconforto respiratório, isso reduz a visibilidade dos trabalhadores e dos motoristas.
O problema é especialmente grave em obras próximas a rodovias e avenidas. Uma nuvem de poeira lançada sobre a pista pode impedir que o motorista enxergue os veículos à frente.
Algumas medidas preventivas são:
- umedecer vias internas e áreas de solo exposto;
- cobrir caminhões e pilhas de materiais finos;
- reduzir a movimentação de terra durante ventanias;
- limitar a velocidade dos veículos no canteiro;
- interromper o serviço se a poeira atingir vias públicas.
O vento também pode carregar poeira para áreas com pintura recente, impermeabilizações, colagens e outros serviços em execução, prejudicando aderência e acabamento.
Trabalho em altura
Serviços em andaimes, telhados, escadas, plataformas e bordas de lajes devem ser suspensos quando o vento comprometer o equilíbrio, a movimentação ou o controle dos materiais.
Uma chapa de madeira carregada por um trabalhador pode funcionar como uma vela e puxá-lo para fora do andaime. Mesmo com cinturão de segurança, o impacto de uma queda pode causar ferimentos graves.
Gruas, guindastes e plataformas elevatórias também possuem limites operacionais de vento definidos pelo fabricante. O operador deve acompanhar o anemômetro (aparelho que mede a velocidade do vento), respeitar os procedimentos de segurança e interromper as atividades quando necessário.
Existem registros de tombamentos e colapsos de equipamentos de içamento durante tempestades. Nessas situações, improvisar ou “terminar só mais uma peça” envolve riscos desnecessários.
Acompanhar a previsão do tempo também é engenharia
Uma das tarefas do responsável pela obra é acompanhar diariamente a previsão meteorológica. Em períodos de instabilidade, convém verificar os boletins mais de uma vez ao dia.
Com antecedência, é possível:
- reprogramar serviços em altura;
- adiar içamentos;
- conferir tapumes e coberturas provisórias;
- amarrar lonas e materiais leves;
- desmontar elementos temporários vulneráveis;
- proteger pinturas e impermeabilizações;
- orientar trabalhadores sobre áreas de risco.
E quem está apenas passando pelo local?
Mesmo quem não trabalha em obras deve redobrar a atenção durante vendavais. Evite permanecer próximo a tapumes, placas, árvores, andaimes, fachadas em manutenção e coberturas provisórias.
Procure abrigo dentro de uma edificação resistente e mantenha distância de janelas. Não tente segurar telhas, lonas, portões ou objetos grandes que estejam sendo arrastados pelo vento.
Em regiões sujeitas a furacões, os moradores são orientados a retirar de varandas e terraços cadeiras, mesas, vasos, churrasqueiras e outros objetos. A razão é simples: qualquer peça solta pode ser lançada contra outra edificação.
Resumo: cuidados antes da ventania
- Acompanhe diariamente a previsão e os alertas da Defesa Civil.
- Não deixe telhas, chapas e madeiras soltas em locais elevados.
- Fixe e contravente corretamente tapumes, placas e barracões.
- Amarre lonas em vários pontos e impeça a entrada do vento por baixo.
- Interrompa trabalhos em altura quando as rajadas comprometerem a segurança.
- Respeite os limites de operação de gruas, guindastes e plataformas.
- Controle a poeira em áreas de terraplenagem.
- Faça uma inspeção no canteiro antes de encerrar o expediente.
- Após a tempestade, verifique peças deslocadas antes de retomar os serviços.
Ventos fortes não costumam avisar qual telha, tapume ou painel será arrancado primeiro. A prevenção consiste em olhar para cada objeto leve do canteiro e perguntar: “Se vier uma rajada de vento agora, isto continuará no lugar?”
A natureza, por vezes, é extremamente violenta. Não podemos impedir o vento, mas podemos evitar que a própria obra forneça os objetos que ele utilizará para causar o acidente.